O texto que vou transcrever foi publicado num suplemento do Diário de Notícias, já há uns tempos atrás e foi escrito pelo jornalista Nuno Cunha. É uma belissima reflexão sobre o estado da Arte e é escusado dizer que subscrevo-o na íntegra. Aproveito para dizer que o título deste post é o título deste texto tal e qual como foi publicado. Sendo assim:
”O artista alemão Gregor Schneider procura um voluntário com uma doença terminal para transformar a sua morte numa performance, a patentear ao público; Aliza Shvarts, aluna de Belas Artes da universidade de Yale, quer mostrar vídeos de abortos a que se submeteu voluntáriamente, a partir de inseminações artificiais ao longo de nove meses, provocando a interrupção da gravidez com recurso a fármacos; ambos depois do caso Habacuc (…). Os três casos agitam (e indignam) o mundo, afirmando-se como propostas que procuram quebrar alguns dos últimos tabus da sociedade contemporânea.
Os três exemplos recentes inserem-se no extremo de um percurso da arte em que continuadamente se repetiu uma mesma fórmula, tornada baluarte fundamental do êxito comercial dos artistas contemporâneos: criação de tensão, acompanhada da anestesia dos públicos, seguida de nova tensão. É um contínuo fluxo de dependência da novidade, que desde os vanguardistas se apresenta como um limiar de um novo paradigma, alvo de uma procura constante e sempre inatingida, mas que tem garantido a manutenção de um sistema onde os museus e centros culturais ganham em audiência e as galerias e os “grandes” artistas do sistema ganham em negócio.
Trata-se, no entanto, do falso posicionamento no umbral de um novo modelo, numa espécie de promessa quase diária de “agora é que é” a arrastar-se desde há quase um século, só possível pela existência de uma autoridade adulterada constituída em torno do fenómeno artístico, formada essencialmente por críticos, curadores, galeristas e grandes coleccionadores.
São obras geradoras de polémica, em que a indignação colectiva é o grande motor da curiosidade, apanágio de gosto fácil dos públicos que sustentam o fenómeno mercantilista da arte contemporânea, gerador das muito procuradas audiências com que se degladiam as grandes instituições culturais, que por seu lado sustentam e dão valia a manifestações que depois ninguém ousa pôr em causa.
A confusão entre a necessidade de chocar, de fazer espectáculo com recurso ao fácil ou ao exagero da escala, por um lado, e a criação de novos modelos de sensações, que dão acesso a novas experiências do sensível, em que se recorre á obra como veículo de comunicação, por outro, suporta a estrutura vigente, num território que nem sempre é da arte, controlado pelas rentáveis bolsas alternativas.
Ao artista que acede aos territórios mínimos da consagração é exigido um estado de vigília constante ao processo, imposto por um medo permanente da perca do reconhecimento que lhe garanta o desenvolvimento da sua visibilidade, e as fórmulas que repete daí em diante mais não visam do que o exercício de surfista que lhe garante a sua manutenção na crista da onda.
Este é o quadro: estamos no falso limiar de um novo paradigma há quase um século e não há uma autoridade que faça a destrinça entre Obra e obra.”